sábado, 31 de outubro de 2015

Acampamento Sinistro I / Sleepaway Camp I (1983)






''OHH, LOOK AT ALL THAT YOUNG FRESH CHICKEN.''

''Não são jovens demais pra você?''

''Não existe essa de jovem demais. Existe apenas velho demais.''

Debatendo o slasher mais mentalmente lesado, transgressor e genial de todos.

''You fucking bastards, you're gonna pay for this. Cocksuckers. Pricks. Pussies. I'll kick your fucking asses all over this fucking camp. I'll kill you.''

A aniquilação de bullies se encontra de maneira bastante especial neste cult oitentista que pode até ter a aparência de mais um slasher florestal - mas não é. Numa macabra trama que, de maneira escondida, conta até com pedofilia, incesto e homossexualismo, está um dos mais queridos filmes de matança dos anos 1980.

O primeiro Acampamento Sinistro / Sleepaway Camp (dirigido pelo agora advogado Robert Hiltzik), um autêntico clássico slasher oitentista que revelou Felissa Rose - vista também no maravilhoso e inigualável Horror, de Dante Tomaselli - ao mundo, é mais lembrado pelo seu chocante e perturbador final WHAT THE FUCK?! Epílogo este que possui semelhanças com pelo menos dois ótimos filmes anteriores (um certo delírio surrealista de 1973, e um belíssimo giallo de 1976) e dois posteriores feitos por cineastas de altos e baixos (duas produções frustrantes, sendo uma xaropice aí feita por um cineasta do Reino Unido, em 1992, além da palhaçada otaku Fudô: The New Generation, 1996, de Takashi Miike).

Portanto, não é uma revelação inédita ou única no cinema.

É a forma como ela acontece, e sua importância na trama, que a coloca acima das cenas (mais ou menos) similares dos outros filmes citados. É um raro caso de revelação totalmente sem precedentes na área slasher. O melhor a fazer, para quem não conhece a franquia, é manter distância de qualquer info relacionada aos três filmes (e também aos bastardos - e péssimos - Sleepaway Camp 4: The Survival e Return to Sleepaway Camp), para não correr o risco de ter a surpresa da parte I estragada. Só não mantenha distância dessa resenha aqui, pois o 7 Noites em Claro traz tolerância zero aos spoilers.

(Nota: Na modesta opinião do seu humilde narrador, o final de Acampamento Sinistro I é o momento mais icônico da história dos slashers junto DAQUELA sequência de massacre do também sensacional The Burning, AKA Chamas da Morte / A Vingança de Cropsy.)

Os créditos iniciais de Acampamento Sinistro são ótimos, com as imagens do Acampamento Arawak (que depois viraria Acampamento Rolling Hills e então Acampamento New Horizons) e as tenebrosas vozes em off. Teremos o primeiro acontecimento trágico do filme, seguido pelo ''8 anos depois'', onde seremos apresentados à meiga e silenciosa Angela (Rose, compondo aqui uma das personagens mais especiais do gênero), seu primo Ricky (acompanhado de sua mãe freakazóide, débil e, francamente, insuportável - além de meio assustadora também, se pararmos pra pensar) e suas desventuras no acampamento - onde não faltarão coisas habituais de tramas adolescentes, como esportes, tensão sexual e bullying (felizmente aliadas aos assassinatos em série, a necessária eventual redução de scumbags - ''You're a real scumbag, aren't you, Judy?''). Afinal de contas, os slashers são essencialmente Porky's com mortes violentas.

As camisetas de bandas devidamente esquecidas como Asia e Blue Oyster Cult tentam deixar o filme com um ar datado, mas a atmosfera nostálgica, as mortes absurdas/bizarras/memoráveis, a conclusão from hell, a curiosidade dos protagonistas menores de idade (algo bastante incomum no gênero - eles estão sempre no fim da adolescência, ou já na casa dos ''twenty-somethings''), que chega ao cúmulo das incorreções políticas ao mostrar piadas de pedofilia (o personagem pedófilo ainda possui cumplicidade), e, é claro, a esquisita protagonista (bastante ciente do quanto é inútil tentar dialogar com os bullies) tornam Acampamento Sinistro um slasher definitivamente obrigatório. Ahh, e a música dos créditos finais é muito legal: You're Just What I've Been Looking For (Angela's Theme), de Frankie Vinci; a trilha em geral é bem icônica.

A cinessérie seguiu com os divertidos Sleepaway Camp 2: Unhappy Campers (genial título original pateticamente traduzido aqui para Acampamento Sinistro, na VHS da Vic - cuja qualidade de imagem está na medida para machucar os olhos) e Sleepaway Camp 3: Teenage Wasteland (que também saiu pela Vic em VHS... como Acampamento Sinistro 2!!!), além do já citado e horrível Return to Sleepaway Camp, que marca o retorno de Robert Hiltzik à série como diretor. Houve ainda a tentativa de fazer o Sleepaway Camp: The Survival, que não pode ser finalizado - e circula apenas numa edição que é uma ''fucking mess'', com trechos dos três primeiros filmes colados na bagunça geral.

Lá fora, a trilogia original está toda disponível em lindíssimas edições especiais em DVD e Blu-ray. Aqui só temos as partes 2 e 3 em VHS. Bem... Quem sabe o primeirão não foi lançado em fitinha ''alternativa'' na época, né?

Acampamento Sinistro / Sleepaway Camp: uma compilação de vídeo-resenhas do You Tube



Acampamento Sinistro I (Sleepaway Camp I): resenha positiva do Blu-ray americano

https://www.youtube.com/watch?v=h1xEiOSbd8Y

Acampamento Sinistro II (Sleepaway Camp II: Unhappy Campers) e Acampamento Sinistro III (Sleepaway Camp III: Teenage Wasteland): resenhas (algo negativas) dos BDs americanos

https://www.youtube.com/watch?v=z1-lA_lk3wQ

Survival Kit: resenha do box em DVD

https://www.youtube.com/watch?v=Lrx6O5kpxG4

De quebra, o nosso esnobe favorito comenta os três filmes, mais a bomba Return to Sleepaway Camp e o incompleto Sleepaway Camp: The Survival... (além do tal ''Son of Sleepaway Camp'', que não possui relação com a série)

https://www.youtube.com/watch?v=Dgqjspw7im4

https://www.youtube.com/watch?v=7SIzmNYBWrg

https://www.youtube.com/watch?v=l5fMLiJTof4

https://www.youtube.com/watch?v=vlUwKc0yWUk

https://www.youtube.com/watch?v=tlicVFcLfqA

https://www.youtube.com/watch?v=w9dwgpzGZgY

... e um vídeo em português: o TOP 10 Slasher do Marcelo Carrard / Nudo e Selvaggio (# 4 = 17:26 - 20:04):


''Nada se compara à última cena, uma das coisas mais absurdas, estapafúrdias... É um final tosco, divertido, perturbador... É tudo junto.''


https://www.youtube.com/watch?v=FfNb8WbmztQ

 

As Vinganças de Jennifer (1978-2015)

Cotações:

***** = excelente
**** = muito bom
*** = bom
** = regular
* = fraco
BOMBA! / péssimo

A Vingança de Jennifer (Day of the Woman / I Spit on Your Grave, 1978) ****


O clássico (?) misógino e/ou feminista dividido em duas metades de extrema violência: o ataque à Jennifer Hills (Camille Keaton, de Força Cruel e dos recentes As Senhoras de Salém e O Segredo da Borboleta) por quatro deranged scumbags, e sua sádica vingança contra os motherfuckers. Um ícone cult de gosto duvidoso, reverenciado até hoje e imperdível para fãs de Aniversário Macabro e similares; seu grande atrativo é retratar o que de pior o ser humano pode oferecer. A Vingança de Jennifer é possivelmente o rape & revenge definitivo. Saiu duas vezes em VHS (Look e Jaguar) e duas em DVD (ambas pela Cult Classic). Uma curiosidade: tem um outro filme do diretor, Family & Honor (A.K.A. Don't Mess with My Sister), lançado em VHS por aqui pela Top Tape.

Doce Vingança (I Spit on Your Grave, 2010) *** 1/2



 Atualizando as características do eternamente controverso filme original, ou seja, a perversão e a psicose – que é o que a refilmagem d'A Morte do Demônio deveria ter feito. Mas tem um porém: não possui a provocação do filme de 1978 (aquelas ambiguidades perigosas), preferindo partir pra histeria e para os apelos do chamado torture porn. Seja como for, é um remake de valor que deve agradar os fãs da película de Meir Zarchi. Sarah Butler também esteve no filme de zumbi Os Dementes / Demente, e no ridículo thriller erótico Perigos da Mente. Este remake dirigido por Steven Monroe (O Exorcismo de Molly Hartley) saiu em DVD e Blu-ray pela Paris Filmes, mas sem o tratamento especial da gringolândia.

Doce Vingança 2 (I Spit on Your Grave 2, 2013) ** 1/2


Steven Monroe está de volta com uma sequência caricata e previsível que, apesar de trazer mais do mesmo (em doses maiores, no claro desespero de chocar o pobre espectador), está mais para Albergue (2 e 3 – mas principalmente o 2) e congêneres do que para A Vingança de Jennifer e Doce Vingança. E não adianta o diretor da tralha Terror na Escuridão tentar retomar a obra-prima maldita Mártires – que parece ser o foco de diversos momentos desta sequela, digo, sequência. Ainda assim deverá agradar os menos exigentes. Lançado novamente em DVD e BD pela Paris, e novamente sem ter o tratamento da edição lançada lá fora - que possui as cenas deletadas.

Doce Vingança 3: A Vingança É Minha (I Spit on Your Grave 3: Vengeance Is Mine, 2015) *** 1/2


Nesta parte 3, Steven Monroe foi substituído por um cidadão chamado RD Braunstein. Sarah Butler retorna como Jennifer Hills, agora se escondendo sob o nome Angela; é isso o que deveria ter acontecido no segundo filme... É o mais diferente dos quatro I Spit on Your Grave, e também o mais assumidamente feminista. Realmente há uma história acontecendo aqui (Miss Hills se envolvendo com um grupo de vítimas de estupro e seus dramas e temores), e não somente a combinação estupro + tortura + assassinatos over & over again. Há também toda uma crítica à polícia e ao sistema judiciário - e uma ótima revelação no final. O grande problema do filme: os inúmeros flashbacks de Doce Vingança 1, e a overdose de cenas de ''daydreaming''; tem mais delírios/fantasias do tipo do que A Máscara do Terror (Bruiser) e Réquiem para um Sonho JUNTOS. É algo que tira a credibilidade de qualquer filme se acontecer mais de uma vez; várias vezes então nem se fala.

(...)

Ao que tudo indica, agora já era: virou uma franquia mesmo, e só o Apocalipse poderá impedir novas sequências.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Não preciso assistir 007 Contra Spectre...

... para saber que o filme (se é que podemos chamar algo nada cinematográfico de ''filme'') chupa bolas. Nem a beleza de Lea Seydoux (Azul É a Cor Mais Quente) e o talento de Sam Mendes (Beleza Americana, Soldado Anônimo) podem salvar uma franquia condenada à ruindade eterna.

James Bond: viu um, viu todos. E nenhum se salva.


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Até Que a Luz Nos Leve (2008)

''Onde quer que católicos, ou protestantes, ou outras denominações cristãs venham, eles destroem a cultura. Eles arruínam a cultura. Eles queimam a cultura. E queimam os registros dessas culturas.


O cristianismo é a razão de todos os problemas do mundo moderno.''


Não me identifico com o metal, com suas idolatrias bestas e infantis (como respeitar um meio em que Ronnie James Dio - ele mesmo, ''o cara do chifre'' - é visto como ídolo?), ''Deus do metal isso'', ''heavy metal é a lei aquilo'' e outras baixarias nonsense impossíveis de levar a sério se você tiver 16 anos ou mais. É muita adoração, muita crença... Muita coisa que não gosto.


Por isso e outros motivos, gostei bastante deste fascinante documentário sobre o black metal norueguês, que foge da imbecilidade vista em vídeos documentais sobre metal, tipo aquelas vergonhosas entrevistas da Hard N Heavy e outras palhaçadas. Aqui há uma seriedade, uma sobriedade, uma abordagem honesta e intelectual nos depoimentos (nem sempre - já que não consigo apoiar o assassinato de um homossexual - mas geralmente), que pode surpreender os leigos no assunto; aqueles que acham que o gênero é coisa de ''satanista sem noção''.


Por trás das prisões, assassinatos, suicídios, igrejas queimadas e declarações pró-armas, há um protesto de guerrilha, uma inquietação anti-conformista muito forte. Assim sendo, o black metal é um mundo à parte: não outro subgênero entre tantos, mas algo como uma Deep Web do heavy metal.


Ao contrário de grupos patéticos de white metal disfarçados de algo sério, como KI$$ (um conjunto de rock liderado por um judeu ultra-mercenário; tô fora), Iron Maiden, Saxon, Helloween, Angra e outras lamentáveis atrocidades do igualmente patético mundo ''headbanger'', Até Que a Luz nos Leve apresenta um grupo seleto de músicos de black metal (principalmente Varg Vikernes, do Burzum, e Fenriz, do Darkthrone), almas atormentadas condenadas à reclusão social, com um interesse mais focado na desmistificação do estereótipo e na autêntica expressão artística - muitas vezes acompanhada de um comportamento auto-destrutivo a lá GG Allin e Richey Manic - do que em gravar os mesmos discos eternamente ou elogiar o metal e os metaleiros; na verdade, há um notório desprezo niilista pela cena do metal e seus seguidores de praxe, o que é algo sempre muito bem-vindo. Não espere aqui os comentários padrões do metal falando sobre união da cena e demais utopias.


E declarações contra os EUA e os judeus são também sempre amigáveis.


(...)


Black Metal & Horror Cinema


Ligações com o mundo do cinema (em especial o de horror) ocorrem com uma citação do Sodom à sepultura que aparece no começo de Pavor na Cidade dos Zumbis (1980, do meu mentor máximo Lucio Fulci), mudando o ''Dunwich'' para ''Sodom'', com a participação de Harmony Korine (diretor de Gummo: Vida sem Destino, Julien Donkey-Boy e Mister Lonely), com uma loja que possui o simpático nome Elm Street e também no fato de que este documentário teve uma influência para a criação do clássico instantâneo A Entidade (2012, Scott Derrickson) - que também usou The Boards of Canada em sua trilha sonora. (O que nos leva a indagar: como teria sido o Mr. Boogie não fosse a inspiração do black metal?)


Como o próprio Derrickson chegou a comentar, eu também possuo um conhecimento bem tímido sobre black metal, mas é difícil não reconhecer qualidades encantadoras em certos aspectos de sua história. E Até Que a Luz Nos Leve soube cobrir isso de forma magistral. Deverei revê-lo muitas vezes, pois ele cumpre os dois deveres essenciais de um documentário: registrar algo e, através de tal cobertura, alimentar a inspiração.


Em suma...


Até Que a Luz Nos Leve é do caralho. Uma forte recomendação do blog 7 Noites em Claro.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Os Idiotas (1998)

''Um filme sobre idiotas, feito por idiotas… Para idiotas?''



Não se trata de uma VHS remotamente rara, é de um período tardio do formato (final dos anos 1990), saiu em uma ótima edição em DVD por aqui com a mesma capa – por aquela que TALVEZ seja a única empresa brasileira de home video que se importa com o consumidor, a Versátil (se é que temos uma distribuidora que se importa) – e o mais grave: não é um bom filme; está mais para um precursor acidental de desgraças intragáveis como Jackass e Violência Urbana (Bumfights), além do superior – mas também repleto de altos e baixos – Ex-Drummer.


Ainda assim queria muito (vai entender) ter a fitinha do segundo exemplar do Dogma 95, realizado logo após o também duvidoso - apesar de claramente melhor - Festa de Família/Festa em Família, de Thomas Vinterberg. O meu interesse na fita talvez tenha a ver com o meu interesse na própria Cult Filmes (em parceria com a Imovision), de quem suspeito querer ter todas as VHS lançadas, já que possuem um catálogo invejável, incluindo obras inesquecíveis que figuram facilmente entre as prediletas da casa, como Na Companhia de Homens e Amigas de Colégio.


Os Idiotas, primeiro flerte do diretor com o sexo explícito, acaba sendo um dos Trier mais fracos, junto do abominável O Elemento do Crime/Elemento de um Crime/Elementos de um Crime (sem dúvida uma das piores coisas que vi na vida, onde nem a musa do canibalismo italiano Me Me Lai se salva…), a primeira parte da Trilogia da Europa, que depois melhoraria no OK Epidemia (cuja melhor coisa é a canção-tema Epidemic: We All Fall Down, de Pia Cohn), um raro ''found footage'' (não exatamente, mas whatever) realizado entre 1979 e 1999, e o bom – às vezes genial – Europa, a sua (primeira) consagração internacional.


Bem, no mais, tanto Trier quanto ''o outro cara do Dogma'' começaram mal, e só recentemente fizeram suas obras-primas máximas: Melancolia e Ninfomaníaca II no caso do primeiro, e o imbatível A Caça no caso do segundo.


… mas, seja como for, Os Idiotas tem sim os seus bons momentos de anarquia e inconformismo...


''Do que adianta uma sociedade cada vez mais rica se ninguém é feliz?''

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Céline & Julie Vão de Barco (1974)



Fantasmas. Gatos misteriosos. Palhaços misteriosos. Drogas e sonhos. Chaos Magik e sigilos de destruição. Ocultismo. Simbolismos macabros. Personagens que trocam de lugar entre si, chegando ao cúmulo de trocar de lugar com o espectador - que entra na trama e passa a ser assombrado também. Mas acima de tudo: magia - dentro e fora da arte cinematográfica.


Nouvelle Vague demais para o cinema de horror, ou horror demais para o cinema da Nouvelle Vague? Revendo o ponto máximo dos ''drug movies'': Céline & Julie Vão de Barco (1974), de Jacques Rivette.


''Aquilo ali é um fio visível ou mensagem subliminar? E aquilo lá, está daquela forma por acaso ou é mais simbolismo? E... aquela cor está mudando ou é impressão minha?


E o que o Rivette quis dizer com isso? Seria uma maneira de falar que as mulheres permanecem crianças a vida inteira? Será uma forma de mandar um grande CALA A BOCA para todos que dizem ver algo de manifestação feminista no filme?''


Pensar que a ideia inicial era somente ver a abertura e avançar no fast forward, pra ver se o (novo) disco (de back-up) estava rodando OK...


Na semana passada, eu e o Bob / Mr. Shakra, que é também um gigantesco fã deste filme, acabamos fazendo uma sessão memorável de C&J (título 100% completo: Scènes de la Vie Parallèle 1: Céline & Julie Vão de Barco - Phantom Ladies Over Paris), possivelmente o mais original, estranho e exigente dos filmes de mansão assombrada (ou ''old dark house''), além de ser descrito por um usuário do IMDB como ''talvez o único filme realmente surreal já feito''. Não sei se concordaria, mas não deixa de ser uma observação bastante interessante: C&J já tinha algo de horror Kubrickiano (apesar de Rivette odiar Kubrick) antes d'O Iluminado, já era Lynchiano antes de Lynch fazer longas, e já mostrava que ''a magia está em todo lugar'' três anos antes de Suspiria. Pode parecer loucura tecer tais comentários, associando o filme (de um dos nomes chave da Nouvelle Vague) ao campo do terror, mas C&J é, na verdade, muito mais amaldiçoado, secreto, indecifrável e perigoso do que cinéfilos e críticos vem apontando desde sua estreia, em 1974. É uma obra que sempre se transforma em algo novo, algo além, em cada revisão. Um ponto verdadeiramente único na história do cinema. Por mais que eu também ame a versão longa de Out 1 (Noli Me Tangere, com 13 (!!!) horas de duração) e Duelle (a década de 1970 foi mesmo o auge artístico do diretor), vou ser bem óbvio quando o assunto é Rivette: C&J é o meu Rivette favorito. E eu sempre irei considerar C&J terror - mesmo que o mundo inteiro me considere insano por isso. (Se for para rotulá-lo cautelosamente, então o chamaria de uma fantasia surrealista inusitadamente 3D - levemente cômica, e com um cenário de horror.)


Em tempo, C7J também já foi chamado de ''a experiência cinematográfica mais essencial da vida''. Assisti-lo pela primeira vez pode causar uma sensação de sonhar acordado das mais únicas; no meu caso, na época, parecia que as coisas ao redor iriam (ou já estavam) voando - ou algo assim. Por mais que tentar comentá-lo seja uma missão fadada ao fracasso, devo admitir que os comentários do IMDB são sim, em seus melhores momentos, bem instigantes. É muito difícil resenhar Rivette, portanto só estou fazendo uns comentários livres sem nenhuma pretensão - e ciente da possibilidade de eventuais delírios em relação a suas liberdades.


Da mesma forma que o brasileiro Prova de Fogo é pró-macumba, C&J pode ser visto como pró-voodoo, pró-álcool/drogas e anti-social. Sua mensagem parece ser a de que a única possível escapatória se encontra no campo da magia - às vezes, da magia negra. Já que o sistema da vida é puro nonsense, por que então não aderir de vez ao absurdo?


C&J se passa num universo onde a vida e a morte não possuem muita diferença; onde o passado, o presente e o futuro andam lado a lado, e tudo parece fazer parte de eternas visitas a um limbo do qual não queremos abandonar - seria ele um precursor acidental d'A Caverna do Dragão e de Lost? A ''história'' foca nas duas personagens do título (amigas? parceiras do meio da mágica? vizinhas? parentes?) e o envolvimento que irá acontecer entre elas e os fantasmas (Barbet Schroeder, Bulle Ogier, Marie-France Pisier) habitantes de uma mansão mal-assombrada, em eternos conflitos de maldições, pesadelos e bizarrices. O primeiro (?) contato entre a sensual Céline (Juliet Berto) e a amalucada Julie (Dominique Labourier) culmina numa perseguição por vielas e afins similar a Harry correndo atrás de sua filha, Cheryl, no começo do primeiro game Silent Hill, feito 25 anos depois - algo assim, como uma variação de Donald Sutherland em Inverno de Sangue em Veneza.


(Aliás, Jeanne Moreau e Anna Karina são o escambau. Para mim, Bulle e Juju Berto são as musas definitivas da Nouvelle Vague.)


As mais de três horas do filme (3 horas e 5 minutos - a cópia integral possui 7/8 minutos a mais) passaram de maneira totalmente despercebida, sendo que, volta e meia, pausávamos para debater alguma coisa relacionada a ele, ou rebobinávamos para (tentar) ver melhor algum detalhe. Outros filmes foram lembrados e brevemente comentados durante a sessão, como a ''trilogia'' Mulholland Drive (A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos, Império dos Sonhos), As Margaridas / As Pequenas Margaridas, Hausu e Para Sempre Lulu (não me perguntem o AKA dele - nunca irei lembrar), além dos 4 filmes diretamente ligados ao universo C&J: Duelle (Uma Quarentena) / Duelo (1976), Noroeste (1976, o único Rivette que não gosto) e A História de Marie & Julien (2003), além do mais que obscuro Sérail (Surreal Estate ou Deception, de 1976).


No fim das contas, parece que quanto mais se debate sobre o filme, menos estamos perto da ''verdade'', da solução deste enigma chamado Céline & Julie Vão de Barco. O que diabos seria essa viagem de ácido em forma de cinema? Como comentei antes, é um filme que está tão ''acima'', tão evoluído em seu maravilhamento e leque de complexidades, que tentar fazer algum tipo de crítica acaba sendo puramente superficial e vazio. Ou então, algo que resultará em cair numas viagens das mais malucas - mas se o propósito dele é mesmo surtar e embarcar em realidades paralelas, então é possível estarmos no caminho certo. O único filme que considero tão contundente quanto ele na área do surrealismo acaba sendo o injustiçado Comando Out / Desvio Mortal / Fúria Terrorista (1982, de Eli Hollander) - bastante Rivettiano também, até no título original (Out).


Pena a Criterion (ou qualquer outro selo com poder para tal) nunca ter se importado em lançar este ou outro Rivette com o tratamento que merece, com o próprio fazendo comentário em áudio, etc. É uma lacuna que incomoda bastante - uma grande injustiça a um cineasta absolutamente genial e obrigatório.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

As Senhoras de Salém (2012)


Após perder fãs com seus dois Halloween (2007, 2009), o rockstar que virou cineasta Rob Zombie volta a boa forma mostrada em A Casa dos Mil Corpos (2003) e (principalmente em) Rejeitados pelo Diabo (2005) com As Senhoras de Salém / The Lords of Salem, realizado em 2012.

O inferno é liberado na cidade de Salém após a DJ interpretada por Sheri Moon Zombie (musa e mulher de Zombie) receber um misterioso disco do grupo intitulado The Lords - seria uma referência ao The Lords of the New Church? Tal álbum, com sua sonoridade hipnótica e assustadora, poderá causar a dizimação da população de Salém.

As Senhoras de Salém não parece em nada com os trabalhos anteriores do diretor. Há ecos de clássicos do horror italiano (em especial as Três Mães de Argento mostradas em Suspiria e A Mansão do Inferno) e Jodorowsky, formando uma galeria de simbolismos tétricos (por vezes blasfemos, por vezes carregados de sexualidade mórbida, e sempre de forte impacto visual) que permeiam por toda a duração do filme. Mostra uma faceta de Zombie que seus detratores não imaginariam existir.

O melhor do diretor depois do quase perfeito Rejeitados pelo Diabo.

Eles Existem (2013)

''Desde 1967, houve mais de 3 mil encontros com o Pé Grande apenas nos Estados Unidos.


Os especialistas concordam que as criaturas só ficam violentas se atacadas.''


Seja mostrando alguma coisa, mostrando muito ou não mostrando nada, Eduardo Sanchez parece mesmo empenhado em sua missão de ser reconhecido como ''o cineasta do found footage'', já que vem dedicando toda sua carreira ao tipo de filmagem revelado ao mundo em 1979 pelo italiano Ruggero Deodato, no sensacional e único Cannibal Holocaust - não o primeiro, mas certamente o melhor do ciclo carcamano de filmes sobre canibalismo. Após os excelentes A Bruxa de Blair (1999) e Adorável Molly (2011), além do divertido segmento A Ride in the Park, de V/H/S 2 (2013), Sanchez visita novamente, em Eles Existem (Exists, 2013), o reino do found footage, estilo que ajudou a (re)criar ao lado de Daniel Myrick - e que anda absurdamente em voga após o sucesso fenomenal de Atividade Paranormal.


Explorando dessa vez o mito do Pé Grande (ou Sasquatch), a trama acompanha um grupo de amigos com a utopia de que um fim de semana em local assombrado pelo bichão pode ser sinônimo de festa. A viagem, em rumo a uma cabana na floresta, será documentada em vídeo pelo personagem mais carismático da trupe: Brian, um maconheiro freak mucho loco que não consegue se encaixar nem mesmo em seu grupo de amigos. Essa ovelha negra tem como obsessão e meta de vida fazer um vídeo que entrará no TOP 10 dos mais vistos na história do You Tube. Mal ele sabe que tal objetivo poderá custar muito caro.


Sanchez fez uma extensa e obsessiva pesquisa sobre a lenda urbana do Pé Grande como preparação para Eles Existem, mas, infelizmente, fica muito claro que o cineasta se sai muito melhor com as sutilezas tenebrosas mostradas em A Bruxa de Blair e Adorável Molly, do que com toda essa agressividade do querido (?) ''Sash''. A pressão de ser assombrado pelo codinome ''o diretor d'A Bruxa de Blair'' (ao mesmo tempo uma benção e uma maldição) parece ter pesado demais dessa vez, fazendo com que o realizador demonstre mais desespero do que segurança na direção do longa.


No fim das contas, o filme é uma diversão despretensiosa com um ou outro momento de forte tensão - na verdade, tem duas sequências incríveis, sendo uma delas a cena final. Tem conteúdo, mas o Bigfoot aqui passa muito longe da genialidade minimalista de Blair ou Molly.


O DVD lançado pela Imagem, pra variar, é tão pelado quanto o próprio Pé Grande.


''ISSO NÃO É VEADO. É O SASH, CARA.''

 

Bullying

Não existe conversa ou possibilidade de negociação com bullies.

(...)

Nem todo viado é bully, mas todo bully é viado. E nenhum bully merece existir.

(...)

Destrua os bullies. Ou morra tentando.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

''WHEN MASTURBATION'S LOST ITS FUN...''

''WHEN MASTURBATION'S LOST ITS FUN, YOU'RE FUCKING LONELY.''

Não quero uma namorada: só quero poder voltar a fantasiar sexualmente em paz, poder formar na minha mente as imagens que eu desejo, pensar no que quero pensar. Bons tempos quando a masturbação era a melhor coisa do mundo.

É, até esses precursores do emo (com o refrão aqui inspirado em I Want Action, do Poison) possuem letras mais interessantes do que Iron Maidumb, a ridícula bandeca de Mr. Steve Headless e Sr. Buça Dickinscum.

https://www.youtube.com/watch?v=c87TKWgRyCE

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Fuck the World ou Fuck the World?

Qual canção é mais divertida: Fuck the World ou Fuck the World?

Hey now
Hang on
While I fuck the world

Gimme just a minute
While I fuck the world

One more time…

'Cuz tonight I'm feeling sexy
Gonna fuck the world
Forever

https://www.youtube.com/watch?v=OyGsUGmYlAA

We'll fuck the world up
World…
C'mon, fuck the world

https://www.youtube.com/watch?v=ebC1qDeX0oQ

James Bond bom é James Bond morto

James Bond nunca perde e nunca morre. É outro sabichão espertalhão fucking asshole (na mesma lamentável linha ''OLHA O QUANTO EU SOU COOL'' dos outros dois imbecis do TOP 3 com os piores personagens da história do cinema: Han Solo e Ferris Bueller; a menção ''especial'' vai para os piores momentos do Tarantino, um cineasta de (poucos) altos e (muitos) baixos), que sempre acaba se dando bem e pegando todas as fúteis Bondgirls.

Até coisas escapistas sem cérebro precisam de um certo conteúdo, valor transgressor ou bom senso, coisas inexistentes nessa cinessérie pavorosa que vem assombrando a Sétima Arte durante décadas.

Respeito mais até um Velozes e Furiosos do que o babaca supremo 007. É um pesadelo de franquia que, assim como todas as coisas ruins da vida, nunca tem fim.

Contatos de Quarto Grau (2009)




Obra arrebatadora – com algumas sequências que beiram o insuportável, de tão tensas – que parece declarar morte à Spielberg e seus aliens da Terra da Fantasia (filme de ET bonzinho é igual comédia romântica: NENHUM presta), com retrato dos mais brutais, desgraçados e pessimistas de ataque alienígena a cidadezinha do Alasca – cidade com forte histórico de abduções desde os anos 1960 (Contatos de 4o Grau é supostamente baseado em fatos reais).

O que nos é mostrado, perturba, e, o que não aparece, é ainda pior: ”O Quarto Grau, ele não pode ser descrito. É a imagem da total falta de esperança.“ Faz assim o equilíbrio adequado entre horror psicológico e horror explícito através de situações de onde aparenta ser impossível achar uma saída. Mistura drama com o híbrido sci-fi/terror de maneira impressionante, e chega a lembrar o clássico O Enigma do Mal, dirigido por Sidney Furie, adaptado de romance de Frank DeFelitta – e também ''baseado em uma história real… que continua acontecendo''.

As qualidades são tão fortes que suas eventuais falhas acabam sendo perdoáveis, e não conseguem afastar o filme da cotação máxima: a introdução da Milla Jovovich (''o que vocês verão a seguir é extremamente perturbador'') junto do diretor Olatunde Osunsanmi, e a edição ”estilo MTV“ do primeiro ataque dos ETs nada amigáveis.

Figura facilmente entre os melhores found footage já feitos, junto de Canibal Holocausto / Holocausto Canibal, A Bruxa de Blair e as partes I e III de Atividade Paranormal. Realmente assustador: reparem na coruja misteriosa, nas sessões de hipnose ou nas traduções da língua desconhecida.

Como uma abduzida chegou a comentar em um documentário sobre o tema certa vez:

''Eles (alienígenas) sempre fizeram o que querem, sempre vieram aqui sequestrar qualquer um que quisessem, porque sabem que podem escapar ilesos. E eles farão isso para sempre, porque ninguém pode impedi-los. Pelo menos ninguém no Planeta Terra.''

Interessante também pensar em como nunca ouve um único relato de abduzidos que falava sobre ter sido ajudado de alguma forma pelos alienígenas.

Já pensaram no quanto é errado e irresponsável fazer filme de ET bem-intencionado? Eles existem sim, mas são completos filhos da puta. Fuck you, Spielberg.

Hotel da Morte (2011)

Claire (Sara Paxton, d'A Última Casa) e Luke (Pat Healy, de Magnolia) são os dois únicos funcionários (os ”Innkeepers“ do título original) do Yankee Pedlar Inn, um decadente hotel supostamente assombrado pelo fantasma da misteriosa Madeline O'Malley.






Ti West (A Casa do Demônio / A Casa do Diabo), o diretor que salvou a primeira antologia V/H/S do naufrágio (no segmento Second Honeymoon, com suas homenagens à Comunhão / Alice Sweet Alice e O Maníaco / Maniac) realiza aqui o que pode ser visto como O Iluminado do novo século: é a perfeita combinação entre atmosfera, poder de sugestão, imagens perturbadoras e momentos seriamente aterrorizantes. Para ser visto sozinho no escuro, à noite, com o som alto na medida certa; em outras palavras, não deixe ninguém arruinar sua seção do melhor filme de horror da década junto d'A Entidade, Adorável Molly e Insidious (ridiculamente traduzido para ”Sobrenatural“).

Hotel da Morte também tem algo a dizer sobre escravidão no trabalho, salário mínimo e continuar completamente perdido na vida mesmo após o fim da adolescência. (Tem mais que poderia ser escrito nessa parte, mas não seria possível fazê-lo sem cair na armadilha dos spoilers.) Além dos horrores sobrenaturais, há também os da vida real – a lenda de O'Malley acaba surgindo como uma alternativa ao tédio da rotina, decepções e declínios gerais da questão humana.

É Ti West, Scott Derrickson, Eduardo Sanchez e James Wan liderando a revolução anti-torture porn.

PS: Tentem prestar atenção especial na mensagem subliminar (a imagem escondida) dos literalmente últimos segundos do filme, antes da vinda dos créditos finais. Até isso lembra O Iluminado.