Apesar de não ser realmente um filme de canibalismo, temos que levar em consideração que o próprio Ruggero ''Mestre Canibal'' Deodato já se referiu a Inferno ao Vivo (Inferno in Diretta / Cut and Run, 1985) como sendo a parte final da sua saga de canibalismo, seguindo assim o cult Mundo Canibal / O Último Mundo dos Canibais (1977) e o épico do gore Canibal Holocausto / Holocausto Canibal (1979); filme que entra, facilmente, no TOP 10 das produções mais controversas da história do cinema italiano - apesar de perder feio no território dos escândalos e polêmicas se comparado a coisas como O Exorcista (William Friedkin, 1973), A Última Tentação de Cristo (Martin Scorsese, 1988) e A Paixão de Cristo (Mel ''Cuzão Valentão'' Cabaçon, 2005).
Afinal, de qualquer forma, algumas das principais marcas registradas desse subgênero italiano - iniciado em 1972 por Umberto Lenzi em Mundo Canibal / O País do Sexo Selvagem - estão presentes sim na obra: o estereótipo do índio selvagem e mal intencionado, as drogas, o gore brutal (incluindo uma cena em que um infeliz é partido ao meio - algo que o finado freakmaster japa Teruo Ishii já havia feito nas telas bem mais de uma década antes, e que ainda seria retomado por Lucio Fulci em Demonia) e o cenário da selva aonde as pessoas serão abandonadas e só os mais fortes sobreviverão.
Com isso tudo dito, Inferno ao Vivo decepciona - e muito - ao supostamente adaptar um roteiro não utilizado de Wes Craven e trazer Deodato de volta a mais uma desventura na selva. Numa má comparação, eu diria que Inferno ao Vivo é para a saga canibal do Deodato o que tranqueiras como O Poderoso Chefão 3 e Pusher 3 são para suas respectivas trilogias.
Quando Inferno não nos presenteia com a sangreira generalizada causada pelo personagem do adorável freakazóide Michael Berryman (que, no mesmo ano, ainda apareceu em dois videoclipes retardados do Motley Crue: do cover Smokin' in the Boys Room e da balada Home Sweet Home), o filme simplesmente decepciona e muito. É isso mesmo: o insano vilão do Berryman e a desgraceira gore causada por ele são mesmo o ÚNICO real valor de Inferno. De resto, temos personagens chatos pacaray, diálogos xaropetas, situações nonsense e trocentas sequências inúteis de helicóptero voando ''for the fuck of it''. A impressão que passa é a de que o troço nem foi dirigido pelo Deodato, e sim por um novato Zé Ruela qualquer que decidiu fazer uma aventura gore no mato tendo os já citados Last Cannibal World e Cannibal Holocaust como referências. É mesmo chocante pensar que o próprio Deodato tenha sido o responsável por um filme tão fraco.
E tem outra. Já se falou muito sobre o quanto o finado Lenzi plagiou o Deodato em Cannibal Ferox - ou ''Cannibal Xerox'' como costumam dizer. Mas puta que pariu... VAMOS LEMBRAR NESSA BAGAÇA QUE FOI O PRÓPRIO LENZI QUE COMEÇOU ESSA PUTARIA TODA DE FILME ITALIANO DE CANIBALISMO, CARALHO, FILHO DA PUTAAAAAAAAAAA. E, em alguns casos, foi o próprio Deodato que chupinhou o Lenzi, e não o contrário. Por exemplo, no primeiro filme de canibalismo do Deodato, O Último Mundo..., ele reuniu os dois protagonistas d'O Último País...: Ivan Rassimov e Me Me Lai. E, aqui em Inferno, o Deodato até faz uma menção ao Jim Jones, que, cinco anos antes, já havia sido interpretado pelo Rassimov em Os Vivos Serão Devorados do Lenzi. Ou seja, o real motivo do Deodato ser considerado o grande mestre desse subgênero infame é o fato dele ter dirigido o grande clássico do estilo, Canibal Holocausto. É essa e somente essa a real razão. Por outro lado, ele não foi o precursor dessas porras e ele até cometeu lá os seus plágios e pisadas de bola.
OK, mas, voltando a Inferno ao Vivo, podemos também observar que as várias tretas ocorridas durante as suas conturbadas filmagens (confira por si mesmo: https://www.imdb.com/title/tt0089338/trivia?ref_=tt_ql_2), que incluem discussões feias e até agressões físicas, repercutiram mesmo no resultado final do filme da pior maneira possível. Uma trasheira quase que total que, novamente, só vale pela carnificina splatter causada pelo personagem do grande Michael Berryman, mais lembrado como o Pluto de Quadrilha de Sádicos. Inclusive, logo no começo do filme, ele e a sua trupe do mal são responsáveis por uma doentia sequência de barbaridades que, além de algumas cabeças cortadas, até resultará num estupro coletivo duma mulher que estava no lugar errado e na hora errada.
No mais, nem a trilha sonora do paulista Claudio Simonetti (Goblin, Daemonia) servirá para empolgar muito.
Mas OK, apesar de todo o clima capenga-vagabundo, apoiado por um sensacionalismo barato, Inferno ao Vivo ainda é infinitamente superior ao Canibais / The Green Inferno, a ''homenagem'' que o imbecil do Eli ''Albergue'' Roth, AKA Putinha do Tarantino, fez ao finado subgênero dos canibais italianos. (É, com homenagens assim, é melhor apodrecer no caixão mesmo.)
No fim das contas, eis a minha cotação a Cut and Run, AKA Straight to Hell, AKA Amazon: Savage Adventure: 2.5 de 5. Regular, portanto.
PS: Por falar em homenagens, de uma maneira totalmente intencional esse post acabou sendo os meus ''parabéns'' ao Ruggero Deodato, que fez aniversário nessa mesma Sexta 7.
















